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Nós que aqui estamos, de corpos costurados, por vós esperamos

O homem é enfermo porque é mal construído. Temos que nos decidir a desnudá-lo para raspar esse animalúculo que o corrói mortalmente,

deus
e juntamente com deus
os seus órgãos

Se quiserem, podem meter-me numa camisa de força
mas não existe coisa mais inútil que um órgão.

A. Artaud

*

 

Um evento assumiu ares de demoníaco, de satânico, de crime. Uma vagina, uma buceta, uma xereca costurada, enfim, um corpo usado de outra maneira do que fora ensinado. São as repercussões da mídia carta branca.

O corpo é o que somos, é campo inesgotável de descoberta. “O que pode um corpo?” é pergunta que não pode ser respondida, aliás, já é uma resposta-pergunta. O corpo explicado é um corpo costurado. O corpo prescrito e revisto pela medicina, pelo sexólogo, pelo cristianismo, pelos costumes, pela família, pela psicologia e suas fases do desenvolvimento, pelo ordenamento jurídico… são muitos os costureiros do corpo – e modelos de costura. O corpo deve ter postura, modo, forma. Somos entupidos de corpos ideais e seus usos. Um corpo a ser usado conforme o grande manual social costurado com várias normativas que não identificamos como tal, a maioria sequer se dá conta do corpo que é. Pensá-lo, experimentá-lo, vê-lo como campo de acontecimento, de desconstrução, criação e re-criação de si, de máquina de guerra.

Nossos corpos são costurados diariamente pelas linhas múltiplas dos saberes e dos poderes. Sagrada família, sagrada democracia, sagrada educação, sagrada saúde, sagrada religião, sagrado mundo ditado por todo tipo de gente fraca, podre e corrupta que se esconde em seus gabinetes para aperfeiçoar os controles das costuras. Cada espaço desse mundo está costurado, sexualidade é apenas uma das áreas, área fértil, dos costureiros agirem.

Modelitos inocentes de gênero, parentesco e intimidade. Homem, mulher, primos, namorados, colegas, amigos, amigo íntimo, amigo colorido, amante, minha mulher, meu marido ( (meu homem não se fala e não é por acaso)… por que precisamos de tantos modelos? A partir dos modelos costuram-se os limites. Nessa malha social é possível mover-se desde que respeitando as sinalizações das linhas. Costurados em modelos diferentes, homens e mulheres só se misturam à vontade se houver o intercâmbio necessário: se namorados, se amantes, se houver uma justificativa – do contrário o estranhamento é o sentimento mais comum. O desconforto e o incômodo surgem do próprio terreno cotidiano. De modo geral, um homem e uma mulher que não tenham um grau de intimidade já desenvolvido se sentem desconfortáveis, precisam percorrer as costuras do íntimo e dos papéis, ainda que se queiram, pois são costurados. Isso é uma típica costura, fina costura, de como corpos-costurados se relacionam no cotidiano. O jogo do enamoramento é um tatear das linhas costuradas um do outro, percebe-se que os corpos, ainda que desejosos, estão costurados em modelos e precisam caminhar em direção aos espaços permitidos, rasgar a costura pode assustar e por isso é necessário ir pedindo licença aos vários botões e zíperes. Homens e mulheres não somos nós, são personagens postos em uma guerra criada por uma moral escrava artesã de modelos sociais.

Debaixo da pele o corpo é uma fábrica a ferver, e por fora, o doente brilha, reluz, com todos os poros, estilhaçados. – A. Artaud. O fato de um pequeno grupo se reunir e uma garota costurar, literalmente, sua vagina escandaliza não pelo ato em si. O corpo é dela, teria que pedir licença a um dos vários padres modernos? Definitivamente não! Chamar o acontecimento de demoníaco, satânico, crime e até mesmo orgia, como se orgia fosse crime, por quê? A sagrada fachada foi quebrada. Goffman, em um estudo sobre as relações humanas, aponta o quanto nos mobilizamos para preservar o que ele chama de fachada, nas situações de constrangimentos incrivelmente lutamos para preservar a nossa (e a do outro) fachada. Transponho para a situação sem querer me ater ao significado para o autor. A fachada de cada um de nós… quanto nos permitimos a constrangimentos? Uma das maneiras mais comuns – e antigas! – de reconstruir uma fachada que é quebrada bruscamente já não é mais se solidarizar, mas desmerecer aquele que a quebrou, e não devemos nos espantar pelos nomes atribuídos à situação: ritual satânico, orgia, coisas de bruxa e demônio.

Costurar uma vagina em público denuncia. Denúncia em público. E não é qualquer denúncia, é uma denúncia sobre uma fachada que é preservada, e isso constrange e incomoda muito. A nossa grande fachada sexual. Materialização da nossa costura diária, com agulhas de ferro que espeta a carne e sangra. Diferentemente do que sofremos diariamente com as agulhas e linhas de um fascismo que quer costurar todos os espaços e não deixa suas marcas em vermelho-sangue, costureiro hábil e sutil que nada quer deixar escapar, as cidades, os corpos, os afetos, o pensamento. Hemorragias causadas em vidas inteiras, através de doses diárias de violência e modos perversos de legitimação do poder.

Com Foucault, chegamos a tal ponto que a questão não é descobrir o que somos, mas recusar aquilo que querem que somos. Ritual satânico? E por que não? Um demônio que enfiou uma agulha em nossos cus e costurou, sem anestesia, aquilo que temos permitido sem reclamar. A tal ponto chegamos que a razão, iluminada e cirurgicamente preparada nos dominantes “hospícios do saber”, oculta cada vez mais as costuras, e talvez seja urgente que os demônios denunciem aquilo que os santos querem nos roubar, e deveríamos ainda hoje nos espantar com algo tão semelhante àquela familiar e secular história de um demônio-serpente que denunciou o prazer que nos roubaram?

Somos costurados pelas doses diárias de imbecilidade da TV, pelas doses diárias da boa e gorda saúde dos homens de bem, pelas doses diárias de correções mentais prescritas pelas polícias psi, pelas doses diárias de “Hitlers” com mais ou menos lábia a nos dizer como nos comportar e como pensar, pelas doses diárias de uma classe média e alta que clama por mais vigilância e punição, pelas doses diárias de todo tipo de imbecil que ao invés de se revoltar contra seus cus costurados vai aplaudir a contagiante felicidade de obediência ditada pelos artistas-fanfarrões de TV e palcos diversos, pelas doses diárias de uma insensatez apressada, pelas doses diárias de uma ignorância sedenta por julgar sem conhecer.

Nós que aqui estamos, de cu, pinto e buceta costurados, por vós esperamos! A esperar, longas filas de espera para tudo, a sociedade inteira está se transformando em uma longa fila de espera conforme “descosturou” Bukowski. E é necessário ter bem claro – em meio a tantos costureiros prometendo libertação – que ninguém poderá desfazer as nossas próprias costuras senão cada um de nós mesmo.

É necessário descosturar muita coisa, mas antes de tudo uma força inocente para não costurar novos modelos. Prudência é necessário para nós que somos ex-crentes, ex-sagrados, ex-perfeitos. Órfãos! E assim continuemos, órfãos, filhos do caos e das forças que compõem corpos e corpos que se encontram e se alegram e se entristecem e nada mais, órfãos sem Pai sim! órfãos sem recorrer a novos padres, a novos pais, a novos gurus, ao psicanalista e suas odes à falta. Sem recorrer a tantos costureiros da realidade.

* O título é uma alusão, também, ao excelente filme de Marcelo Masagão chamado “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (1991).

A arte e a morte – Artaud

Onde se malham as forças

Ó cães, que acabastes de rolar na minha alma as vossas pedras. Eu. Eu. Voltai a página dos escombros. Também ando à espera do celeste saibro e da página já sem margens. Este fogo precisa de começar em mim. Que os blocos de gelo venham naufragar-me nos dentes. Sou de crânio rude mas alma lisa, como um coração de matéria naufragada. Tenho ausência de meteoros, ausência de injúrias inflamadas. Na minha garganta procuro nomes e como que o cílio vibrátil das coisas. O cheiro do nada, um relento de absurdo, a estrumeira da morte total… O leve e rarefeito humor. Eu próprio já só espero o vento. E chame-se amor ou miséria, não vai naufragar-me em nenhum lado que não seja uma praia de ossos.

A. Artaud in A arte e a morte

Mundo desencantado

beija-flor

A terra, o universo, as estrelas, as galáxias, a noite, o respirar, os animais, a água, os sons da vida… objetos e coisas sem encantamento. Raramente sequer percebidos. Estamos ocupados demais com um modo de vida que nos faz acreditar ser o melhor possível. Percebemos muito bem coisas que tenham valor social e de mercado vivendo em função de valores advindos das produções dominantes de vida. Nessa perspectiva o viver deixa de ser transbordamento e encantamento e passa a ser esgotamento nos usos e desusos. Todas as coisas adquiriram sua função – ou ainda são coisas para serem descobertas – no mundo, capturadas segundo os critérios da produção: ciência aristotélica aplicada à economia.

Se algo não é compreendido só o é enquanto objeto capturado para ainda ser compreendido pelos que são legitimados ao saber. A criatura birrenta que se autodenominou inteligente não aprecia o mistério e o encanto, eles clamam pelas descobertas, pela essência e a partir daí julgam. Engenharia complexa de desencantamento do mundo: o encanto capturado em um objeto para ser transitado em forma de verdade e a partir daí gerenciar modos de vida adequados ou inadequados perante os critérios da moral.

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