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Presos à linguagem

Por todos os diabos! Nem se pode fazer uma crítica à linguagem senão utilizando-se da linguagem: estou preso na linguagem, quero fugir, não posso, estou condenado a morrer com palavras.Não há algo que possa ser dito sem deixar de ser dito, e não há algo que não foi dito que  possa deixar de ser dito. Tudo o que se diz diz também o que não se diz, e o que não se diz também diz. Toda afirmativa é também uma negação, toda negação é também uma afirmativa, não porque são, mas porque assim suponhamos ser. Quando digo que não sou socialista outro vem e diz que sou capitalista, ou anarquista, ou… mas eu apenas disse que não sou socialista. Se digo que sou capitalista, poderão dizer que não sou socialista, nem anarquista, nem… mas eu apenas disse que sou capitalista e não que não sou isso nem aquilo. Ao dizer que o homem é racional colocam-me palavras à boca: você não diz que o homem é mortal, é isso e aquilo. Se fico em silêncio durante uma pergunta dirão que não sei respondê-la. Mas não se pode dizer tudo, e não se pode dizer nada sem deixar de dizer tudo. Nas dispustas entre os pontos de vistas científicos nenhuma crítica é imune às críticas, nenhuma crítica existe que não se possa respondê-la, nenhuma resposta pode ser dita que não possa ser criticada. Críticas não são conteúdos para preencher algo que faltou, mas antes nosso hábito de tagarelar: toda crítica está condenada a ser criticada porque deixou algo de fora. Sempre deixaremos algo de fora. Por que queixamo-nos de que certas teorias não respondem certas coisas? A “contra-teoria” já nasce também deixando de responder. O que podemos fazer? Nada. Tagarelemo-nos até morrer: não porque devemos, mas antes porque estamos condenados a tagarelar.

Folha e demais canais irresponsáveis de comunicação

Seja inteligente. Não sustente a camaradagem da mídia business. A Folha quer de você o que ela quer. Evite a nefasta ditadura da comunicação parcial. Não alimente empresas privadas de comunicação. Agora deu nos canais de mídia independente, que a Folha, grande braço forte do governo ditatorial no Brasil, quer fechar a TV Brasil. A TV Brasil conta com uma programação independente que respeita os regionalismos, a diversidade cultural do Brasil e busca levar programação de qualidade às pessoas.

Há uma forte disputa entre os canais privados da comunicação tirânica contra os canais públicos e independentes. Atente-se ao que você lê: Veja, Isto é, Época, O Globo, Estadão, Folha… quanto lixo, só para citar alguns impressos, “informativo” não temos por aí? Tudo isso não é feito só com jornalistas irresponsáveis, mas fundamentalmente, parte dos políticos e empresários. Aliás, o Serra que o diga.

Agora deu dele comprar também os delinquentes do CQC.

O desespero do incomunicável

Um homem caminhava pela praça deserta sob uma noite refrescante. Eis que foi assaltado por um pensamento, ou mais precisamente, um misto de pensamento com monólogo acompanhado pelo tilintar das folhas secas que eram esmagadas:

“Nossos olhares se cruzaram. Eu cruzei o seu olhar e por vaidade achei que o seu também cruzou o meu de uma forma diferente: essas coisas da vaidade humana… aquilo que o olho vê e quer, vê o que se quer ver, pensa o que se quer pensar. Os amantes, quando olham seu objeto de amor, costumam pensar que nada é por acaso.

Deixei para lá. Mas durante a noite você rondou meus sonhos, habitávamos um mundo onde tudo era exatamente como eu queria. Eu o Criador. Você pensava e agia, mas era o que eu pensava e desejava. Cada gemido, cada silêncio, seu cheiro e sua carne, eu as criava. Mas você não era uma coisa, eu a criava com desejos próprios, mas eu tinha seu corpo e consciência para mim. Cada ponta da sua língua, cada intensidade, cada temperatura, cada fricção… tudo devidamente onde e da maneira como eu queria. Você sabia exatamente o que eu desejava.

Eu a criei, mas se assim o digo é somente agora, quando em vigília coloco o que consigo do sonho em palavras. No sonho você era livre, agia e desejava por conta própria. E daí vinha meu gozo, sentia-me um privilegiado ao ver-me sendo tão desejado. Em sonho você era uma coisa de minha posse, mas eu não sabia que você era coisa.

Na nossa existência concreta sequer um frescor do seu corpo eu cheguei a possuir. Os sonhos e as fantasias só são sublimes na literatura, porque na existência é um nada profundo. Dizem que os sonhos movem os homens, mas antes são os homens que vivem e movem os sonhos Nunca as montanhas que fazemos aparecer e desaparecer em sonhos conseguimos fazer em vida, não é uma insensatez dizer que sonhos podem virar realidade? Se persistirmos em querer fazer do sonho uma realidade é porque somos platonicamente doentes. ‘A consciência é uma doença’, li isso em algum romance, essa frase atingiu em cheio o real da coisa. O homem que conseguir parar de pensar é homem morto, viverá platonicamente entre os que viverem a ele, mas haverá de desaparecer até mesmo do reino das idéias. Não restará nada para testemunhá-lo.

Quando me deparo com você no mundo concreto lembro-me do sonho e sinto tédio, você agora é tão fria e desbotada com aquela que sonhei. Desejo-te é certo, mas desejo você tal como eu sonhei. Sei que na realidade eu jamais poderia possuir seu corpo e consciência tal como eu possui em sonho. Por vezes podemos realizar algumas coisas, mas tudo será meramente simulacro, devidamente limitado pelas convenções da realidade, das boas maneiras, das boas apresentações, comportado dentre as fronteiras estabelecidas pelos dispositivos da sexualidade, quando muito ultrapassar para mais ou para menos as vias permitidas, mas sem nunca se deixar cair no abismo do sexo sonhado.

O que fazemos uns com os outros em masturbação pode ser comunicado, mas há coisas que permanecem nas profundezas e jamais chegam a ser comunicadas. Ouso dizer que nem os perversos suportariam dizer em realidade tudo o que fazem com o outro em masturbação, podem ser extravagantes, mas ainda assim não deixam de ser humanos e viverem no único mundo em que todos os homens vivem. Sempre haverá de sobrar excrementos, viscosidades, determinadas maneiras de manipular partes do corpo, maneiras de ser possuído e possuir, o alcance das línguas e movimentos que desejamos… o íntimo da vida real não nos permite atingir nem uma fina camada das nossas profundezas.”

O homem após ter esses pensamentos sentiu um profundo pesar pela humanidade. Estava com os poros inundados em um absurdo pastoso. Sentia em silêncio um desespero em imaginar que os homens não podem comunicar jamais aquilo que realmente desejam, e nada tinha a ver com a repressão que tanto dizia Freud. Em um relampejo compreendeu que morreria sem jamais conseguir realmente compartilhar aquilo que profundamente sentia em sua consciência e corpo. Não há linguagem para o homem comunicar aquilo que mais gostaria de comunicar. Só nos resta morrer com a linguagem que temos, um instrumento limitado, uma farsa que se faz por cadeias de palavras que dizem muito, mas nunca aquilo que gostaríamos exatamente de dizer. O caos que se passa em consciência não encontra vazão, tem que se limitar a uma cadeia linear de palavras que as pessoas costumaram pensá-las como se fossem a coisa.

“Tomamos as palavras pelas coisas, o homem é capaz de morrer por uma palavra porque é um imbecil rusticamente evoluído. A consciência é um oceano de significados, mas a boca só pode gotejar. O homem é um tagarela que morrerá mudo”, concluiu.

As palavras não sabem o que dizem

Draw Me The World by stickerstickerDo corpo vem uma mistura sinestésica. Essa mistura de múltiplos elementos precisa ser transformada em pensamento: algumas palavras ajudam nessa tarefa, mas são poucas e todas parecem desbotadas. E do pensamento precisa ser transposto em fala, verbal e não-verbal, ante um ouvinte (que pode ser o próprio enunciador). Aqui se perde toda multiplicidade do que veio à cabeça e torna-se um decantado mínimo e imensamente mentiroso diante do sentido original que nunca pode ser posto em palavras.

Os amantes sabem disso. Querem falar, mas são vítimas das palavras: não por deficiência, mas por estarem diante do impossível: o que vem à cabeça com toda sua força jamais poderá ser posto em palavras. Essa passagem da imagem sinestésica que vem à cabeça para pensamento e então linguagem é um processo inevitavelmente traiçoeiro. A metáfora é por excelência uma tentativa de amenizar o desbotamento da linguagem entre dois ou mais interlocutores, mas nem por isso é capaz de ser externada sem perder brilho e intensidade.

Uma palavra é somente um vazio sem-fundo. Quando digo a palavra flor afeto um ouvinte que forma uma massa disforme à cabeça e cria uma flor como se esse conceito abarcasse todas as flores do planeta: mas essa flor em nada se parece com nenhuma flor, quanto mais a diversidade das flores. É necessário saber que quando dizemos que sabemos o que é uma árvore só sabemos porque colocamos todas as árvores com suas inumeráveis nuances de cores, folhas, texturas e cheiros, todas diferentes, em uma grande categoria, e é através dessa mentira que criamos a “verdade”: eu sei o que é uma árvore porque as pessoas ao meu redor concordam que essa mentira é uma verdade.

Certo é que durante os diálogos não se pensa dessa forma: jogamos palavras como se fossem substâncias, como se cada uma carregasse consigo a sua representação de objeto: tanto é assim que as pessoas se ferem através de palavras. Por vezes algumas palavras causam mais danos ao corpo do que uma afetação física. Vê-se que dois amantes discutindo são dois gladiadores tacando paus e pedras um ao outro.

Toda palavra é coisa morta: algo vivo precisou ser abatido e enclausurado em linguagem. A civilização inteira está regida por palavras, homens e mulheres seguros através das trincheiras das palavras: como nos diz Heidegger, as coisas não podem andar nuas por aí, é necessário prendê-las por palavras.

A arte é infinitamente mais eloquente que as palavras. A música pode falar a dor e o prazer sem dizer nada. Não se pode dizer que não haveria música se não houvesse palavras, mas também seria errôneo dizer que Beethoven eternizou a nona sinfonia sem fazer de palavras. Da mesma forma que difícil seria imaginar o que viria à cabeça se não fosse a linguagem.

A palavra tem infinitas potencialidades para criar e destruir. Pode fazer algo viver, mas também pode matar.

O desesperado se desespera diante do analfabetismo da dor. O escritor que é assaltado por maravilhosas e encantandas idéias durante a noite ou em qualquer esquina, lamenta quando senta para tentar escrever seu romance que parecia tê-lo escrito em segundos. Um pensamento me vem à cabeça e não posso defender-me: não sou eu que penso, um pensamento me assalta. A ingenuidade de Descartes foi ter sido traído pela mais arguta armadilha da linguagem: a necessidade de um sujeito e um predicado. Se se retira o sujeito da linguagem, o eu ou o ser, torna-se impraticável a linguagem.

Flaubert, em Madame Bovary, lamenta não conseguir dizer o que se quer dizer:

Enquanto a verdade é a plenitude da alma que pode às vezes transbordar na pura insipidez da linguagem, pois nenhum de nós pode jamais expressar a exata medida de suas necessidades ou de seus pensamentos ou de suas tristezas, e a fala humana é como um tambor rachado em que tamborilamos ritmos ásperos para os ursos dançarem, desejaríamos compor uma música que derretesse as estrelas.