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Clarice Lispector: a rainha do sem-sentido

Que êxtase de gratidão por ter “conhecido” Clarice Lispector! Conheci-a através da famosa entrevista que ela concedeu pouco tempo antes de morrer, em 1977, ao jornalista Junio Lerner. Em suas poucas palavras, pareceu-me sempre restar um “algo mais” muito mais profundo que Clarice parecia querer dizer, um incomunicável que se vive e não se fala. Contrastando com isso, tem a irritante e insuportável categoria do jornalista que a inquire a todo instante com um “por que”, quer retirar de Clarice o “conceito” e a “explicação”, e a escritora se recusa a participar desse jogo de discurso previsível. Pena que Lerner não tenha percebido que a dimensão do diálogo a que Clarice parecia estar aberta não era a do diálogo coerente moldado pelos corrimões do raciocínio.

Assim, a partir dessa entrevista busquei conhecer um pouco da obra da escritora, e como critério, parti não da sua obra mais conhecida e famosa, mas sim das mais periféricas. Ora, o que me chamou profundamente a atenção assistindo à entrevista da Clarice, em primeiro instante, foi justamente a sua relação com a linguagem que parece ser sempre insuficiente para conseguir dizer o que se vive e experiencia: Clarice parece travar uma luta com a linguagem. De tal modo as obras mais periféricas possivelmente seriam as que teriam mais “conteúdos” ocultos nas entrelinhas, dado que uma obra literária dificilmente vem a se tornar famosa se se exige para sua “compreensão” um distanciamento da lógica da linguagem, sem perder a própria linguagem, e consequentemente, dificilmente chega a vingar para um público amplo. Em suma: “A hora da estrela” foi a obra que escolhi de Clarice para não ler, talvez em outro momento.

Li dois “pequenos” livrinhos da autora que certamente ficarão grafados na carne. Perto do coração selvagem e Um sopro de vida: pulsações. A primeira é obra da juventude de Clarice, a segunda uma publicação póstuma. Ambas me deixaram maravilhado: duas das obras escritas mais “verdadeiramente” possível, na medida em que o discurso literário é antes um mostrar-se do devir enquanto fluxo. Através delas experienciei uma leitura que foi mais um estar-junto-presenciando-a-vida-das-personagens do que uma leitura onde se junta frases para se construir um sentido: o que a autora quis dizer? – Certamente essa não é uma pergunta que se faz a Clarice nessas duas obras.

Em Um sopro de vida: pulsações Clarice cria um autor que cria uma personagem e a partir daí a obra transcorre num fluxo de devir despreocupado com a estrutura mais formal de um romance. Para que enredo, apresentações e divisões se a vida não comporta demarcações? Precisa-se, mais do que ler, sentir e acompanhar as vivências do autor com sua personagem Ângela Pralini, que tem como fundo a própria presença de Clarice enquanto autora, por excelência, que capta o devir com seu movimento e o coloca em palavras que necessitam de um distanciamento dos sentidos mais literais e usuais para que se possa pegá-las em suas múltiplas colorações; nessa perspectiva é quase impossível não ser intensamente afetado e arrastado pelo oceano semântico criado por Clarice que nos impele para as profundezas sem-fundo das suas palavras.
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Linguagem enquanto réquiem

Dar nome às coisas é anulá-las da existência: tirar o mundo e a existência privados de fundamento e inacessível ao conhecimento e condicioná-los em um ataúde semântico que vetoriza o mistério do mundo em sentido. De outro modo, é dar vida à idealização em detrimento de um mundo além do inteligível da qual estamos privados. A palavra é então, em sua musicalidade – que só pode ser um réquiem -, o que oculta as coisas nela mesma. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que oculta e separa o mundo enquanto fluxo e devir, é aquilo que me liga ao ser: no limite, é o que arranca do esquecimento o próprio existir das coisas para fazê-lo presença aos homens para os homens.

Um mundo fora da linguagem

A mente encontra mistérios porque busca por instinto um objetivo e uma finalidade para toda coisa. Parece que lhe é proibido conceber as coisas tais como são – pelo menos tais como se mostram. – Paul Valéry

Não passo um só dia onde não travo uma batalha quase sem tréguas com as palavras. De tal modo sou dependente da música quando nesses momentos quero prensar a linguagem até sangrá-la! A música me suspende a linguagem pela compreensão que vai além de um manto tecido em cadeias de significantes e significados.

Nessa luta inútil, pois as palavras nunca carregam aquilo que eu gostaria que carregassem, além de ser algo que me escapa com seus conteúdos escorregadios com que são sedimentadas, preciso ridicularizá-las para suportar o escárnio com que elas sempre me atacam.

O meu mundo não pode ser posto em linguagem, em parte porque esta sempre me escapa e é vão tentar dominá-la, mas pouco importa quando nenhum domínio de linguagem é capaz de dizer o que se quer dizer: o que se quer dizer é também o que não se pode dizer. Ainda, a linguagem não tem totalidade nem fundo, mas está aí, sempre inacabada mas estruturada. Nenhum mundo pode ser posto em linguagem, será sempre um mundo-de-linguagem. Se somos, paradoxalmente, verborrágicos, é porque praticamos diálogos como surdos-mudos sem nos ater muito tempo à palavra: o dia que os homens passarem a examinar cada palavra com aquilo que até então imaginaram que ela continha, tamanho será o espanto que possivelmente o silêncio será universal.

Processam-se inúmeros algos na consciência e no corpo, como posso colocá-los em palavras? O mais próximo que chegamos daquilo que gostaríamos de dizer é quando nasce aquele sentimento de que houve uma comunicação com predomínio de uma dimensão sem-palavras, embora possa ter palavras, entre os homens e entre os homens e o mundo.

Tolo homem! Todo seu abrigo teórico está posto em palavras, uma interminável trama de peças fictícias sobre peças fictícias: e o que pode ele fazer para se defender se tudo teria que passar novamente pela linguagem? – Continuemos nossa tragicomédia do conhecimento nos nossos i-limitados enredos perante nossa lógica que se adéqua a um gabarito criado por nós – os próprios interessados.

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