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Amor: fogo que se faz estrelas ou cinzas

Diante da tua presença fico em silêncio, um silêncio perturbado que se debate em gritos de dor e alegria: alegria porque você está presente neste instante e dor porque estará ausente da minha vida no contínuo dos instantes.

O terror nasce diante daquilo que eu não saberia o que fazer se você estivesse presente em minha vida. Compreende o significado de companheiros de existência ou viajantes de espanto? Se compreende também compreenderá o que gostaria que fôssemos: companheiros íntimos de existência ou viajantes íntimos de espanto.

Meu egoísmo quer se afogar em prazer, jamais se contentará com uma ideia que lhe diz para ser equilibrado. Vivo porque se debatem em mim a voz do coração e a voz da razão, e dessa arena por onde o sangue jorra em suas múltiplas formas nas lutas com vencedores e perdedores intermináveis sai aquilo que sou nos instantes.

Se busco refúgio no teu olhar é porque ele me espanta de encantamento. Percebo que do fundo dos teus olhos brota um sentimento de agressividade e ternura de uma inocência alegre e triste; isso me excita e atiça o prazer que não conhece outra coisa senão o querer se realizar. Mas o fundo dos teus olhos é só parte do que no conjunto do teu rosto, com teus lábios, nariz e sobrancelhas de tracejados pequenos e suavizados por Apolo, cria as obras de arte que são os teus sorrisos inconfundíveis e inimitáveis que me atingem. Ficarei dependente?

Sempre achei a beleza tirânica nesse sentido. Ela não é somente algo que se contempla, contemplação é quietude, é para os ascetas; não é como contemplação que te vejo, mas como uma lancinante alegria que tua beleza me atinge e me transborda. Há também a dor que tua beleza me atinge porque não a tenho, e o temor que tenho de que essa epifania que sinto diante da tua beleza possa dissolver meu ser nas profundezas dos teus olhos.

Tua beleza me atinge como fogo que me invade o corpo sem que eu possa me defender, deste fogo que pode ser definido como Amor se tomamos a definição daquele poeta dos mares portugueses, sei que podemos ser uma estrela que brilha sobre um mundo trágico onde a dor e o sofrimento reinam, mas também sei que posso acabar sozinho em cinzas.

Isso não se explica, se vive no império das entranhas da carne.

O teu sorriso é a obra final por onde vejo e sinto que se misturam um pouco de agressividade com a malícia e a doçura de uma bondade ingênua que deixam minha excitação em brasas: mulher malvada, eu grito e quero tua carne! E a meiguice dos teus traços lhe confere as misturas de uma alegria-triste que me faz inundar de ternura e amor: minha doce ninfa, eu canto e me disponho às tuas delicadezas!

Esse absurdo que oculta as flores da alegria e o punhal que cavuca a dor acontece nos instantes invisíveis do tempo, em meio a um silêncio que ninguém ouve ou vê. Mas saibas que tua presença me afeta, de modo que um rio subterrâneo, cujas águas silenciosas e invisíveis formadas pelas lágrimas alegres que tua beleza faz irromper em mim, arrebentam os diques do meu corpo e inunda a carne, dando-me a sensação de que a qualquer momento a tua presença irradiante pode explodir meu corpo e extinguir os pensamentos que nele sobrevivem.

Sabes… morreremos num dia como outro qualquer, apenas mais curto que os outros. Se me revolto por ter que morrer, deve ser pela impossibilidade de eternizar a beleza que me inebria durante os encontros com o mundo. Nesses encontros há jardins multicoloridos com flores, pássaros e borboletas, os astros silenciosos que nos assistem como se soubessem verdades de que não sabemos, têm as cores e formas múltiplas da natureza nos encantar, há o céu que parece ter emoções, pois ora está alegre, ora triste, ora raivoso… inclusive há no mundo o teu sorriso que parece um feitiço capaz de conferir um mundo-trágico que deixa de ser trágico para ser um jardim gracioso e ingênuo de delícias e alegrias.

A consumação dos corpos nas delícias da carne

Tudo o que temos é o corpo e fizemos dele tudo o que não temos. Como somos desconhecidos a isso tudo que temos e somos e que tantas possibilidades de prazer é. Não foi só o corpo de Cristo que foi morto para o Espírito ser soberano, a carne e o sangue ocidentais foram crucificados. Se não fosse o Evangelho, seria o corpo vivo?

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Foi assim tão logo meu olhar cruzou por ela. Musa aterrorizante da beleza que elevou meu corpo ao espanto. Desejei-a de carne e espírito para possuí-la e ser possuído.

Que é isso que acontece na carne e no sangue se nunca nos conhecemos, não nos nomeamos e tampouco ela notou minha presença? Explicar pela sexualidade é só poder falar do que nela colocamos para falar das relações entre homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres.

Sinto meu corpo inteiro se transformar e um querer se imiscuir naquele outro corpo, ambos cuja carne seremos carne sem identidade alguma, sem lugar e sem tempo, mas consumação de prazer suspenso no nada. Consumação… até o último movimento de expansão dos múltiplos seres celulares que formam nossas formas humanas. Morrer de prazer! Prolongar e esticar o orgasmo até explodirmos nossos corpos para se misturarmos ao Universo. É isso!

Todo homem é imortal e tudo pode no raio de um orgasmo. O orgasmo é a imortalidade e a divindade, nele Tudo podemos! Ela, aí, forma humana, carne que se comunica com a minha no incomunicável, traços em forma de mulher que atingem em cheio meu olhar que faz do meu corpo um vulcão querendo explodir sua matéria incandescente de alegria, tristeza, agressividade e amor, prazer e desprazer. Morrer e viver no tudo e no nada, pois a carne só conhece o tudo ou o nada.

Eis que tem o “Eu”, o espírito, o pensamento, a consciência ou o que se queira para chamar o cabresto da Vida. Dotado de uma razão, consciência e lugar no tempo perdido de uma sociedade, choro a dor da impossibilidade de sermos dois animais prontos para morrer de prazer.

Sob a atmosfera cristã, desse ar que cheira o crucificado e a podridão da carne, restam tão somente as práticas já legadas pelos vários profetas-doutores da sexualidade. As práticas da liberdade sexual não são mais que ignorâncias passadas que escaparam à vigilância da consciência e que hoje são convencionais, após os encontros e desencontros de gerações. Dois corpos desejosos fazem aquilo que é permitido dentro da variedade sexual estabelecida, mas não fazem o assustador que a carne deseja envergonhando a consciência.

Possuir um corpo com a língua quente e melosa, de textura macia e áspera, tal como o demônio possui um corpo na visão do padre, sugando e mordendo-o com movimentos cada caverna que oculta seus tesouros imersos em gosmas e líquidos de densidades e cheiros diversos, perdidos em paroxismos e espamos de prazer e dor… Encaixarmos nossos corpos e sermos um só corpo dançante caindo num abismo onde há nada e o tudo é nós, com nossos gritos horrorosos de dor e prazer que ecoam lancinando dentro de nós… A agressividade prazerosa da dilaceração da carne como matéria explosiva para consumir-se toda em prazer, morrer de prazer…

Há tantas possibilidades de nos sentirmos envergonhados ante o Evangelho que paira sob a carne crucificada ocidental… Somos livres sexualmente porque somos castos, pois a carne e o sangue não necessitariam conhecer a liberdade para serem consumidas em prazer, pois serem consumidas em prazer já é o que são. A carne de dois corpos é delícia anterior a qualquer consciência, querem o encontro para se consumir com a potência agressiva de prazer que carrega.