É evidente que todas as passagens de ano são padronizadas, nesse período as palavras paz, felicidade, amor, saúde e dinheiro são maciçamente tagareladas. Diálogos prontos, promessas e desejos que se repetem, com mais ou menos hipocrisia não importa, o ritual da passagem do ano costuma ser significativo para a maioria das pessoas. O que seria da vida dessas pessoas sem a miragem do tempo para que elas possam representar que o novo está por vir? Cada qual significa e vivencia a passagem do ano – e do tempo – à sua maneira.
De tal modo, se não peço paz nem felicidade, nem amor nem igualdade, é porque por demais tais elementos nunca deixaram de serem ideologias transcendentais e, portanto, desconexos das nossas vidas. Mas, sobretudo desejo a todos os colegas e amigos, aqueles que me odeiam e aqueles outros que ainda me irão odiar e que de alguma maneira me deram o prazer de um contato que a muito me alegra, que sejam seus tempos ricos em encontros mais alegres, e que os afetos da alegria possam superar os de tristeza, e que a vida possa ser celebrada com todas as suas possibilidades de dor e alegria, horror e beleza.
Não penso em novos tempos, não creio em progresso e tampouco nos valores transcendentes que fazem parte de outra e não dessa vida. O necessário com suas possibilidades já estão aí como sempre estiveram. Alegria me transborda quando vejo que o homem consegue cada vez mais se afastar de seus refúgios de outros mundos e se ver e compreender nessa vida aqui e agora. É quando o homem se distancia cada vez mais da sua crença na Salvação e na sua arrogância de querer corrigir e melhorar a Vida que me sinto radiante em celebrar com essas criaturas horríveis e agradáveis iguais e diferentes a que somos.
E esta vida compreende os complementares e os antagônicos, com todos os afetos possíveis, uma vida absurda, irracional, misteriosa, horrenda, bela, inaudita, prazerosa, dolorosa, alegre, triste, sem saída e carente de qualquer significado ao mesmo tempo em que é profuso os significados e as saídas das quais arranjamos. Esta vida de dor e alegria compreende os homens, os vermes e todos os outros seres “vivos” [ou não] como modos ou maneiras de manifestações de uma matéria ou de algo inacessível e inominável à palavra e à razão, e todos eles são absolutamente necessários, nem piores e nem melhores, nem bons e nem maus, ao mesmo tempo juntos e separados compomos uma espécie de unidade múltipla e múltiplas unidades. E nessa vida tem um homem que é perverso e bondoso, ama e odeia, é capaz de matar e fazer carícias, é alegre e triste, limitado e ilimitado, condenado à morte e um festeiro a gozar do prazer de se sentir vivo.
Os homens não se tornam identidades imutáveis que devem pensar ou que são ou isso/ou aquilo, eles podem ser e não ser, não há ser sem não ser, e não há não ser sem ser. Deve se ter o direito de apreender a vida ao mesmo tempo como horrorosa e inaudita, miserável e desgraçada e misteriosa e prazerosa, absurda e necessária, com razão e paixões, negá-la e afirmá-la. Revolta e celebração à Vida são complementares e antagônicos, mas, sobretudo possíveis.
Quando se chega mais próximo desses afetos diante da Vida, eis então que penso com pessimismo a miséria e a grandeza de todos nós animais, e no pessimismo está também o otimismo, partes diferentes e iguais de um mesmo Necessário Inaudito.
Riamos e choremos, cantemos e gritemos a nossa condição. Se Tudo vai mal, sejamos felizes!
Imagem: Hades atravessando o Estige. Patinir, Joachim.

