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Cantiga sobre a morte: leia se for capaz!

O texto abaixo é uma canção popular citada por uma paciente do Irvin Yalom. Já li muita coisa que afeta fisiologicamente, palavras que atingem o corpo para prazer ou desprazer, mas em se tratando de escritos que rasgam as vísceras e sufocam o estômago, nem Augusto dos Anjos, já me atingiu tanto quanto o que se segue abaixo.

Você nunca pensou, como se diz por aí,
Que você pode ser o próximo a morrer?
Eles vão embrulhá-lo em um grande lençol branco,
E enterrá-lo a cerca de dois metros de profundidade
E vão colocá-lo em uma grande caixa preta,
E cobri-lo com terra e pedras,
E tudo vai ficar bem por cerca de uma semana,
E então o caixão começa a ceder!
Os vermes rastejam para dentro, os vermes rastejam para fora,
Os vermes jogam cartas no seu focinho.
Eles comem os seus olhos, eles comem o seu nariz,
Eles comem a gelatina entre os dedos dos seus pés.
Um grande verme crescido revirando os olhos
Entra pelo seu estômago e sai pelos seus olhos,
O seu estômago fica verde-musgo,
E o pus escorre como chantili.
Você o passa numa fatia de pão,
E é isso o que você come quando está morto.

Falando de morte com Irvin Yalom

irvin-yalom No meio acadêmico muita gente franze o cenho quando se fala de Irvin Yalom. A maioria simplesmente pelo fato do autor figurar na lista dos mais vendidos, o que costuma carregar entre os intelectuais-catedráticos, uma característica panfletária e vulgar das obras publicadas.

Ora, Yalom sempre deixou bem claro, retomando em suas várias obras, que sua idéia é mostrar em linguagem clara e acessível para o público leigo como funciona uma psicoterapia, e para isso utiliza-se da técnica de ser um bom contador de histórias, habilidade esta que ele mesmo diz.

Contudo, mesmo direcionando suas obras para o público leigo, os psicoterapeutas, principalmente os iniciantes, têm muito a se enriquecer com os seus livros. Pelo simples motivo de Irvin muitas vezes trazer em tona questões que os catedráticos não iram dizer para não pecar diante de suas juras cientificistas, entre elas: como lidar com o sentimento de raiva que estamos sujeitos a sentir pelo cliente; questões relacionadas à atração afetiva e física por parte do terapeuta; abordagem de conteúdos religiosos fortemente enraizados no cliente sem desrespeitá-lo; como usar a autenticidade e os sentimentos próprios diante do cliente a favor da terapia, questão essa que muitos terapeutas insistem em negar se colocando em um patamar hipócrita do “além-do-humano”, etc. E uma última questão, que penso ser de fundamental importância, é estar atento às múltiplas formas que a angústia de morte se revela como foco central a ser trabalhado.

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A morte de Ivan Ilitch – Tolstói

The_Garden_Terrace_by_Caspar_David_FriedrichO filósofo pré-socrático Cícero dizia que filosofar é se preparar para morrer. Eu acrescentaria que a arte também é uma forma de se preparar para morrer, e até mesmo a ciência que busca ocultar a morte da sociedade.

Irvin Yalom revela em seus livros que pacientes com câncer costumam indagar “por que precisaram ter um câncer para aprender a viver”, de fato a consciência da morte é consciência da vida. Tomar consciência da nossa própria finitude pode ser uma experiência reveladora. Há uma pequena obra de arte literária de Tolstói chamada “A morte de Ivan Ilitch” que narra a vida de Ivan, um burguês acostumado com a vida do alto escalão dos serviços burocráticos. Arrogante e petulante pelos níveis de poder e dinheiro, o mesmo se vê diante da finitude da sua existência ao descobrir que está com uma doença fatal.

A consciência da morte para Ivan lhe foi uma experiência reveladora: passou a ter consciência da própria vida, e lamenta que “só agora” é que pode perceber-se como vivo. Diante da sua situação de moribundo o personagem passa a ser visto como um inválido que está morrendo e ficando louco pelos colegas que até então o viam como um homem de sucesso e inteligente. Sem ninguém para compartilhar suas dores ele se dá conta do quanto estava cercado por falsidade e hipocrisia no seu cotidiano trabalhista. Com a morte soprando na sua alma, Ivan percebe que toda a sua ganância por poder, dinheiro e prestígio não fora senão uma forma de enganar a si mesmo da sua existência.

Heidegger, filósofo do século XX, nos diz sobre dois modos básicos de existência, o modo cotidiano e o modo ontológico. No primeiro caso o homem está imerso no cotidiano, é levado conforme as coisas são, distrai-se com os bens e se esvai numa linguagem coisificada, ele não se dá conta de sua condição existencial pois está entretido, a mídia e a tecnologia se destacam como formas de reificação da vida. No plano ontológico o homem vive consciente enquanto um ser finito, se depara com uma vida que já é um “milagre” e se pergunta pelas questões que nunca lhe serão reveladas (que sou? porque existo? o que é tudo isso?), e que portanto, ele mesmo deve inventá-las para si. Certamente que ninguém vive de um ou de outro modo somente, esses dois modos são presentes durante a vida de cada um para mais ou para menos, contudo, parece ser bem evidente que vivemos em tempos onde o homem se comporta mais como uma “coisa” previsível do que um existente.

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