Tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte – Seurat

A obra mais fundamental de Seurat analisada do ponto de vista existencial.

Se tem um possível substrato de afeto que a obra do pintor francês Georges Seurat, Tarde de domingo na ilha de Grande Jatte, que é comum aos que a contemplam, este só pode ser o espanto. Não porque nos deparamos com elementos mágicos e misteriosos de um mundo fantástico, pelo contrário, são elementos comuns da vida concreta. E mesmo com seus possíveis de exótico e inusitado, como um macaco preso à coleira de sua “madame”, este não é o suficiente para negar o real.

Se aquele que contempla pode se sentir interpelado pelo exotismo do macaco, pela inexorável imponência da madame que preenche a periferia da tela, pelos cães em meio ao convívio dos homens, entre tantos outros possíveis desse cenário de gáudio (?) onde homens e mulheres da alta sociedade parecem gozar de uma paisagem não menos terrorífica como aparentemente parece ser idílica, parece também que este não conseguirá ficar imune a um “algo de incomum” e misterioso que parece se passar por todo esse “cenário demasiadamente comum”.

Mas o que é isso-aí, de mistério e de espanto, que não nos permite ficar indiferente? Que estão fazendo esses homens e mulheres numa tarde de verão à beira do rio Reno na pacata Ilha de Grande Jatte, num espaço-tempo parisiense do século XIX, onde o tempo parece paralisado a observar a si mesmo no espaço? – Talvez seja justamente a evidência do real, em carne exposta, desnudo de idealismos, esse comum que grita em silêncio e no cotidiano nos passa oculto sob os augúrios de um mundo prescrito e formulado que não admite ficar sem explicação, que preenche o incômodo-perturbador desta obra de arte que nos coloca sob um vácuo espantoso: o incomum e o insólito, esse mistério que nos atiça, se surgem, é porque são intensamente preenchidos pelo extremamente comum – congelado em um instante – da vida de homens e mulheres retratados numa atmosfera de beleza natural que não deixa de ser um possível do mundo, sobretudo na época na qual a obra é oriunda.

E não tanto por ser raridade nos nossos tempos esses “refúgios naturais” que já quase não fazem parte dos cenários comuns das infernais cidades infladas e dos subúrbios desgraçados senão enquanto fronteiras delimitadas e restritas à zonas econômicas afastadas dos “locais comuns”, portanto, não permissível a qualquer um, é que o espanto nos preenche. Há elementos estranhos demais nessa imagem do comum. Mas o que?

Se podemos levantar alguns aspectos não significa, contudo, conseguir uma resposta, que é o que menos importa e se suportaria sem tão logo ser dissolvida novamente nas profundezas dos mistérios. Como ponto de partida, podemos perceber que essa tarde de domingo não é uma tarde idealizada sob uma atmosfera de intensa felicidade sob os afagos de um fulgurante sol que é mais símbolo de uma beleza idolatrada do que também consegue violentar os afetos e os humores dos animais com sua quentura escaldante. É uma tarde de domingo real onde a claridade anêmica presente denuncia que esse espaço-tempo, é certo, não tanto fúnebre, é mais preguiçoso e acanhado, mais triste do que alegre.

Outra percepção que nos não deixa quieto são essas pessoas solitárias em multidão. De carne e osso? – E como! Quem são elas? O que estão fazendo aí? E o incômodo maior: essas pessoas possuem rostos vazios, onde qualquer um poderia ser qualquer um e nada se alteraria, além de sequer resvalar os olhos num face-a-face conosco. Desprezo? Indiferença? -Não importa. Ainda, se o aspecto desses rostos são tão sombrios, não é menos porque no centro do quadro uma garotinha iluminada e sem rosto nos encara violentamente. Que quer de nós?! Quem é ela? É humana? – Todas as respostas possíveis encontram tão logo sua dissolução, frágeis demais para nos convencer e aquietar diante de inexorável mistério.

Certamente que essas pessoas pertencem à burguesia. Seus trajes são por demais reveladores, as madames e os cavalheiros, se não nos olham nos olhos, estão aí dizendo para que reparemos na moda que eles apreciam. Por outro lado, um homem no canto esquerdo inferior é um estrangeiro em meio a tanta pompa, será que Seurat quer nos dizer algo com isso? Há tantos “serás” tanto quantos “acasos” ou tanto quanto necessitaríamos conhecer as vivências do pintor quando pintava tal obra. Ora, esse macaco na coleira não tem nada de impossível, mas também não é tanto comum, ainda que se saiba que a burguesia francesa da época tinha grande apreciação pelo antropomorfismo – não tanto pelos animais – projetados nos seus bichos de estimação, o poodle é um produto característico desse cenário, de cão de caça a objeto-de-luxo para as abastadas famílias. Mas também poderíamos perguntar se Seurat não tinha alguma inclinação pelos macacos, e aí o exótico poderia ser simplesmente questão estética. Dentre os possíveis, é certo que não ficamos indiferentes ao macaco que ocupa o “lugar” do cão, e vice-versa, mas não nos convencem de que estão aí para nos dizer que homens, mulheres e animais convivem naturalmente. Há vários outros elementos que nesse frágil recorte comum da vida concreta nos são deliberadamente estranhos: a madame à beira do rio segurando uma vara, estaria pescando? Difícil uma madame, sobretudo na posição e no modo como segura a vara, nos convencer de que está somente se entretendo com uma pescaria, embora possível. Prostituta disfarçada visto que eram tão presentes na alta sociedade e ao mesmo tempo deveriam se manter veladas sob os valores liberais-cristãos? É possível.

E seria o espírito misterioso dessa obra proporcionado pelas características de arte egípcia que podemos perceber na representação dessas pessoas, embora tão distantes no tempo um estilo de outro? Com exceção da “menininha iluminada” que nos interpela face-a-face, todas as pessoas estão retratadas de perfil, frias e distantes, parecendo até que vivem cada qual em um mundo estrangeiro um do outro. Nesse cenário de dissolução do Eu, pântano que dissolve qualquer apetrecho possível do processo de individuação, não seriam nós mesmos essas pessoas de rostos vazios? Nós, homens e mulheres com seus tantos e singulares modos de ser, que gritam e perseveram para serem vistos, e que no fundo, em todas as sociedades e épocas, nadificam em matéria e nada mais? Tal como no xadrez, quando o jogo termina, rei, rainha e peões vão todos – indiferentemente – para um mesmo lugar. Mistério de horror porque estamos nos vendo no espelho do real que não reflete nosso Eu senão o nada de um não-ser que preenchemos com “macaquices intelectualóides”.

Dentre as várias inquietações que essa obra de arte aparentemente comum nos interpela, paro por aqui e fico a contemplar o misterioso fluxo desse rio que se segue com seus sons e barulhos que podem desaguar em algum lugar ou não. Sinto-a tão presente e espantosa tanto quanto, às vezes, em meio às paisagens urbanas, com seus horrores e belezas, sou invadido pelo espanto que se mostra no incomum que surge do que nos é cristalizado como extremamente comum e já clarificado. Nenhuma outra obra de arte me evidencia tanto o fundo sem-fundo, indiferente e sem-sentido (não enquanto sentido, mas ausência de tudo aquilo que nós “colocamos no mundo e nas coisas”) onde ocorrem os encontros dos homens com o mundo e as coisas: um mundo que só pode ser aquele que Camus nos apresenta, absurdo, irracional e impossível de se aprisionar em qualquer sentido senão para nós mesmos: um mundo que é assim pensado e conhecido por nós e para nós, que vem a ser somente na clareira humana e não disso-aí enquanto si mesmo que chamamos mundo.

Notas: algumas considerações técnicas sobre a tela em questão são interessantes. Seurat demorou cerca de 2 anos para produzir a obra em questão, nesse tempo foram várias as vezes em que ia até o local ficar observando, sempre de um mesmo ponto da ilha. A tela possui 3m x 2m, e o mais incrível é que foi pintada, grande parte, por vários pontinhos individuais com o pincel sem utilizar de mistura de tintas (pontilhismo) – o que não significa que não tenha traços horizontais e verticais de preenchimento. A menina do centro não foi pintada pela técnica do pontilhismo, daí ser evidente que o autor quer passar algo, talvez o mais fundamental, nesse contraste de iluminação com a claridade atmosférica. O quadro, de origem francesa, lamentavelmente é posse de um museu de arte americano, o que não é novidade… Por fim, Seurat tem uma obra pintada pouco antes da “Tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte”, intitulada “O banho em Asnières” que, embora nunca apresentada de forma simultânea e complementar, retrata em aspecto de semelhante mistério, a outra margem do rio Reno com banhistas da classe baixa.

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