Tudo sobre o julgamento do casal Nardoni

O palco está montado. O espetáculo é longo, exige físico, disciplina do corpo e do espírito se quiser acompanhá-lo até o fim. Os lugares são poucos, há muita procura para pouca oferta, há inclusive aqueles que vêm de regiões distantes, por exemplo, da Bahia, como disse um sujeito clamando por justiça. São muitos os dispositivos, os enunciados, os jogos de discursos e as relações de poder que se estabelecem entre as práticas e as “verdades” e entre o Saber e a Ciência, sobretudo, a jurídica, mas não menos as médicas, as técnicas, as da moralidade, a religião e até mesmo o saber popular que não possui o alvará da ciência mas afeta: um caso que sem dúvidas daria um belo material – abominável material – a Michel Foucault.

Mas o que quer toda essa empresa jurídica? Julgamento, dirá o enunciado mais comum. Enunciado complexo, volumoso, frágil, contraditório, diz e não-diz muita coisa. Fugirei deste termo, ele pode dizer muita coisa, mas não se dirá nada. Certo é que o interesse maior não é possibilitar práticas que gerem menos violência, pelo contrário, o próprio espaço-tempo do caso já inicia o aspecto de bilheteria: o caso é de múltiplos interesses, convergem às estratégias de disciplinação e manejo da manada.

O que está em jogo é a disciplina do corpo e do pensamento, do sujeito, do coletivo e do individual, o devir de um poder difuso que não está em lugar algum, mas é forte o bastante para se internalizar e caucionar na carne dos indivíduos e dos coletivos. Interessa que a Verdade seja arrancada e posta à mostra após apurada pela prática da análise; é uma construção de Verdade a partir de jogos de discursos que se encaixam e se sustentam dando, uns aos outros, sustância e encadeamentos capazes de satisfazer os caminhos de A+B=A+B conforme às exigências da razão. É a construção in loco de um enunciado, de um discurso, de práticas e de elementos que vão se somando aos dispositivos que regulamentam uma malha de bio-poder, confluem aí os discursos do jurista, do médico, do legista, do técnico, dos peritos, dos documentos, dos laudos… há de arrancar uma Verdade, uma quimera, mas com valor de verdade. O rito final fica por conta do júri, gente do povo para o povo, não tanto porque possuem o poder de decidir, mas fazem vir à mostra a síntese final após a luta travada entre o Saber e o Poder das várias partes: ato final.

Os personagens são meros representantes: a manada não se move porque está interessada no destino de um ou de outro, tampouco pelo compaixão à vítima. Na verdade, são sujeitos ocultos. O que está em jogo são discursos que irão dizer e não-dizer verdades e práticas de um mundo extremamente colocado sobre uma ordem moral de culpabilização, responsabilização, da vigilância e controle absolutos dos corpos para que a punição seja feita, não porque ela faz “pagar”, mas ela serve para o dito e o não-dito das práticas sociais. Em suma, é a explicação e a clarificação, dar à ordem da palavra que identifica e guarda complexidades, caos e acasos em coisas devidamente legalizadas, criar a impressão de que há controle, mundo e corpos controlados. “Resolução”: destino final, palavra que apazigua, e mesmo que ela seja esvaziada, é um discurso construído e afeta as práticas sociais.

Nas relações profusas dos discursos que delimitam o campo do possível de uma época, o título dessa postagem é um mero exemplo, enunciado que guarda uma certa posição de status na ordem – não-ordenada e não possível de ser totalizada – dos discursos.

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