Eterno Retorno - um olhar existencial sobre o mundo e o homem

Contente-se coração, contente-se em bater e respirar o espírito do mundo que vem pelos ventos. Se a língua amarga diante daquilo que ela quer e não tem, se o desejo sacrificado tomba a carne diante da força de uma mulher desejada resta a Música para tentar combater a sedução da beleza, beleza afiada como navalha. Misturar o corpo à Música e ordená-lo a seguir em frente: siga pois só há Música vibrando as cordas do universo que ecoam na grande náusea de existir.

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Laudate pueri RV.601
Compositor: Antonio Vivaldi
Maestro: Robert King

Em mais um dia como os outros, desses que o universo e os astros estão calados e nada nos revelam, com o calor do sol derretendo a impossibilidade de qualquer otimismo: um dia como os outros de olhos na frente do computador sepultando a vida em prol do trabalho que dignifica a alma podre das sociedades humanas.

Está de costas para a rua, mas ouve o barulho dos carros que julgam o cotidiano das cidades na âncora da repetição. Brutal ofuscamento à vida que explode em suas múltiplas diferenças constantemente em qualquer canto que se olha mas não se vê.

A preguiça chama. Ouve o chamado da preguiça e relaxa o corpo, distende os músculos e sente a carne dos glúteos pesarem sobre a cadeira enquanto solta pequenos gemidos que em silêncio deixa o sangue mais adocicado. Olha em direção à rua através da porta de vidro escurecido, olha sem ver.

Olha a pomba que acabara de beber água da sarjeta alçando voo. Pássaro gracioso de cor acinzentada que às vezes se percebe como feio, outras como belo, mas que não tem nenhuma cumplicidade com a paz que tanto mais é incompreendida pelos humanos, tanto mais é exortada como lâmina de espada apontada rente ao sol antes do combate.

A pomba certamente percebera o perigo e levantara o voo antes de saciar a sede. Essa que é uma das facetas da vida que é indiferente ao bem-estar das criaturas. Estejam elas saciadas ou não, uma vez criatura está condenada a sobreviver sem o direito de querer ou não querer escolher aplacar as suas necessidades. Mas a pomba, que agora é vista com olhos e sentimentos, pois arrancara o homem do seu cotidiano, já não é a pomba… Da criatura animada que alçava voos e girava a cabecinha só restaram as penas riscando o ar: a parte visível das lembranças que ficará para sempre sem testemunhas. Quem veio a ser qualquer criatura vem sem saber como ser, assim também é a pomba que não escapou a tempo do automóvel guiado pelo motorista apressado que percebeu que matou uma pomba, matou somente uma pomba e não um milagre da matéria.

Mundo sem culpados, sem vítimas nem heróis, cotidiano sem sentido com shows de horrores para quem sabe apreciar sem se envenenar. Palco de tragédias representadas pela criatividade da dor que dilacera a matéria. Detalhes que arrancam a vida das clausuras do cotidiano para devolvê-la com sangue e vísceras em seu terrível absurdo. O asfalto escaldante foi funeral sem lágrimas ali mesmo na crueza do dia. Apesar de tudo as penas flutuavam grafando no instante um olhe-me pela última vez, e faziam cócegas no dia dissolvendo o horror na ternura que embriaga os olhos que, vendo também com a alma, aspiram suas necessidades de alegria e beleza para continuar suportando a dor de existir.

A filosofia na alcova – Sade

1 set 2010 Em: Livros

Se Sade é imoral, que se diga também que antes ele é amoral, e o imoralismo surge como uma reação à bestialidade da moral. Antes de tudo, em todas as condenações que se atribuem a este raro pensador, que se entenda: o universo é indiferente a todas as nossas humanidades, portanto, nenhuma lei fundamenta nada. Nenhuma lei fundamenta nada não é tirania, é apenas nenhuma lei fundamenta nada, o solo sem lei é apenas a natureza e não um erro.

“(…) em todas as carreiras há espinhos, mas rosas só desabrocham onde há vício, e nunca ninguém as colherá nas sendas enlameadas da virtude. O único rochedo a temer na estrada libertina é a opinião do mundo, mas com pouco de espírito e reflexão quem não se alçará acima da desprezível opinião pública? Os prazeres que nos proporciona a estima são apenas morais e convém a poucas pessoas, os da foda agradam a todos, tais são seus atrativos que tornam fácil desprezar a opinião pública, desafiá-la como fizeram tantas mulheres inteligentes para as quais isso até se torna um incentivo. Eugênia, seu corpo é a coisa que mais lhe pertence na terra, você tem pleno direito de gozá-lo e de fazer gozar a quem bem lhe parecer.

Aproveite o melhor tempo da vida, são tão curtos os anos felizes da juventude! Quem não os perde, colhe as mais deliciosas recordações, que bastam para preencher e divertir a velhice! Quem perde a mocidade nunca se consolará; remorso, e pesares inúteis consumir-lhe-ão a velhice, juntar-se-ão aos achaques e o funesto aproximar do féretro será precedido de lágrimas. Tenha a loucura da imortalidade, cultive-a, Eugênia!”

A filosofia na alcova. Marquês de Sade

Pedido de casamento

30 ago 2010 Em: Humor
Pedido de Casamento

Pedido de Casamento

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