Eterno Retorno - um olhar existencial sobre o mundo e o homem

Doença e verdade

2 fev 2010 Em: Pensamentos

Estou enfermo. E nesses estados posso dizer que cada vez mais me torna mais evidente o quanto o pensamento é um escravo da carne e do sangue: resta-me apenas pensar um pensamento como um pensamento que veio em dado momento e sob certas condições de existência, que incluem o clima, o estômago, a boca, os rins, o fígado, o coração, a respiração, a umidade e tantas outras coisas que jamais desconfiamos mas que impactam a nossa potência de existir.

Eis aí o que eu recomendaria como essencial a todo aquele que busca suas comodidades e seguranças na verdade: doença! Sentir a vida lutando bravamente para ser e não-ser sob os sopros do deixar de ser, pinga o pensamento que se perde nos paroxismos de desespero e alegria, mais um do que outro, ou mais outro do que um não convém ao pensamento decidir: apenas experiencia, se quebra, se salva, se… No domínio da carne não há verdade que fale mais alto que a vida, todo o pensamento é uma frágil ilusão diante de uma sensação de que sou radicalmente incógnito diante disso tudo que se passa e sinto, por mais que se possa dar à existência os domínios da palavra que nomeia e conforta.

Lidar com um pensamento que não é outro senão o que vem à cabeça sob dadas condições de carne, sangue e mundo pode tornar a vida leve demais, porém, no mundo em que vivemos, onde se exige que tenhamos a vida engessada, onde o pensamento pesado e metrificado, e a personalidade e o corpo com suas respectivas identidades são exigidos como essenciais no convívio civilizatório, requer-se algo para não ser quebrado com o próprio pensamento. Se me é tão certo que a carne e o sangue determinam, também, os pensamentos, o pensamento, esse nada de ilusão, pode atingir a carne como uma ponta de faca ou como uma suave e alegre brisa a anunciar um novo frescor para existir. Mas devo reservar-me ao direito de ir aos encontros dos desesperos e da alegria conforme os encontros com o mundo sem me sentir no comando de tudo isso.

Tão logo pode vir o amanhã e com ele a convalescença, e a água de que agora estou privado será experimentada como a água nunca antes experimentada. E nesse moinho está a existência, que pensamentos me virão amanhã? Que pensamentos não me servirão mais? Quais pensamentos de que descartei agora preciso resgatar? Não sei, saborear com afirmação ou negação os encontros com a vida já é tudo do possível.

Que o homem, voltado para si próprio, considere o que ele é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste pequeno setor da natureza, e que da pequena cela onde se acha preso, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem diante do infinito?

Quero, porém, apresentar-lhe outro prodígio igualmente assombroso, colhido nas coisas mais delicadas que conhece. Eis uma lêndea, que na pequenez de seu corpo contém partes incomparavelmente menores, pernas com articulações, veias nessas pernas, sangue nessas veias, humores neste sangue, gotas nesses humores, vapores nestas gotas; dividindo-se essas últimas coisas esgotar-se-ão suas capacidades de concepção, do homem, e estaremos portanto ante o último objeto a que pode chegar nosso discurso.

Talvez imagine, então, seja essa a menor coisa da natureza. Quero mostrar-lhe, porém, dentro dela um novo abismo. Quero pintar-lhe não somente o universo visível mas também a imensidade concebível da natureza dentro desta parcela de átomo. Aí existe uma infinidade de universos, cada qual com o seu firmamento, seus planetas, sua terra em iguais proporções às do mundo visível; e nessa terra há animais e neles essas lendêas onde voltará a encontrar o que nas primeiras observou. Deparará assim, por toda parte, sem cessar, infindavelmente, com a mesma coisa, e perder-se-á nessas maravilhas tão assombrosas na sua pequenez quanto às outras na sua magnitude. Pois como não se admirar de que nosso corpo, antes imperceptível no universo, imperceptível no todo, se torne um colosso, um mundo, ou melhor, um todo em relação ao nada a que se pode chegar?

Quem assim raciocinar há de apavorar-se de si próprio e, considerando-se suspenso entre esses dois abismos do infinito e do nada, tremerá à vista de tantas maravilhas; e creio que, transformando sua curiosidade em admiração, preferirá contemplá-las em silêncio a investigá-las com presunção. Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve.

(…)

Ante a cegueira e a miséria do homem, diante do universo mudo, do homem sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse rincão do universo, sem consciência de quem o colocou aí, nem do que veio fazer, nem do que lhe acontecerá depois da morte, ante o homem incapaz de qualquer conhecimento, invade-me o terror e sinto-me como alguém que levassem, durante o sono, para uma ilha deserta, e espantosa, e aí despertasse ignorante de seu paradeiro e impossibilitado de evadir-se. E maravilho-me de que não se desespere alguém ante tão miserável estado. Vejo outras pessoas ao meu lado, aparentemente iguais; pergunto-lhes se se acham mais instruídas que eu, e me respondem pela negativa; no entanto, esses miseráveis extraviados se apegam aos prazeres que encontram em torno de si. Quanto a mim, não consigo afeiçoar-me a tais objetos e, considerando que no que vejo há mais aparência do que outra coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio.

O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora.

Quantos reinos nos ignoram!

Pensamentos. PASCAL, B.

Valsa à vida

30 jan 2010 Em: Músicas

A todos os seres vivos dignos da Vida, desse inaudito, do mistério e do encantamento! Algo do qual, o homem, animal doente, miserável e grandioso, é separado por um intransponível abismo.

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Koala em liberdade

Foto by Guillaume buffet | Fotopedia

A TV Cultura possui vários conteúdos que os raros telespectadores que ainda possuem algum recurso crítico no pensamento conseguem assistir com um sentimento de ganho no final. Roda Viva, Clássicos, documentários, Provocações, … O Café Filosófico, um programa da CPFL Cultura com algumas parcerias que tem como intenção levar discussões acadêmicas para além dos seus corredores mofados, se perdeu em meio às mesmices enfadonhas da psicanálise e das discussões pós-modernas, mas ainda assim tem o seu pequeno público cativo e deve ter sua importância considerada por ser um espaço que de alguma maneira possibilita outros pensamentos que não aqueles reproduzidos no grande esgoto midiático.

Mas nem só de outras possibilidades vive a TV Cultura. Em se tratando de jovens a Cultura parece não estar preocupada com quais valores ela quer difundir, e prefere reproduzir a cultura pop, o descartável, o banal, a padronização, os símbolos de consumo, o óbvio, o espetáculo, os “grandes pensadores” dos twitters… O “Programa Novo”, feito por alguns meninos e meninas que possuem um dialeto hiperpop, programados com habilidades sociais compatíveis com a nossa sociedade vazia e ventríloquos perfeitos das ideologias mais banais do nosso mundo globalizado, consegue disputar, à altura, o nível de imbecilidade com os engomadinhos do CQC, os humanóides da MTV e a delinquência de um Groisman.

Parece que a mídia não vê no público jovem senão grandes bobalhões sentados em suas poltronas, armados de celulares e laptops, enviando seus SMS’s, playlists e outros vazios que endossam a rede mundial de consumo que pode muito bem ser disfarçada como redes sociais onde todos se encontram e compartilham do conhecimento.

Tão vilipendiados e banalizados, o mais insultante é que os jovens globais parecem digerir fácil toda essa cultura agressiva que os tornam cada vez mais produtos passivos de comercialização e troca, e cada vez menos humanos transformadores. Entre tantas coisas que se pode dizer dos jovens contemporâneos, inclusive com possibilidades de amplas transformações do mundo em decorrência da internet que é um meio capaz de gerar impactos nunca antes possíveis em relação ao conhecimento, deve-se dizer também que são potencialmente uma das gerações com maior perspectiva de ser a última das gerações humanas.

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Eterno Retorno é um blog que objetiva instigar o leitor a lançar sobre o mundo um olhar reflexivo, crítico e filosófico.

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