As ciências têm duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, onde se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela onde chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo o que os homens podem saber, descobrem que não sabem nada e reencontram-se nesta ignorância de onde partiram: mas é uma ignorância sábia, que se conhece. - Blaise Pascal

Dois filósofos bastante curiosos são Pascal e Kierkegaard, o primeiro foi francês e viveu no século XVII e o segundo foi dinamarquês e viveu no século XIX. Ambos eram religiosos e mesclaram em suas obras a razão e a fé.

Embora viveram em épocas diferentes há traços bem semelhantes entre os dois. Pascal, inicialmente como físico e matemático estava acostumado a olhar o mundo sob as lentes da razão, no entanto, em algum momento viu que a razão não dava conta da complexidade da vida e do mundo. Assim, a razão em Pascal perde seu posto de supremacia e este passa a estudar teologia, vendo na fé o elemento para o homem “sentir” o mundo e a vida. Nesse sentido, Pascal sacrifica a Matemática e a Física em nome de Deus.

Nietzsche ao olhar para Pascal reconhece seu “brilhantismo” por ver que a vida e o mundo não podem ser compreendidos apenas pela razão, pois esta dá conta apenas de uma ínfima parte da complexidade que se processa na existência. No entanto, ao admitir também a fé, Nietzsche diz que Pascal se “quebrou” com a própria razão, o que se caracterizaria como um típico exemplo de niilismo negativo, isto é, o homem que passa a não ver sentido na vida do aqui e agora em detrimento de uma vida no além. Nietzsche em nenhum momento negou a razão, seu sistema de pensamento reconhecia-a como elemento primordial mas não superior à vida em si, devendo o homem reconhecer que o mundo da razão é um mundo forjado por nós, de tal forma que seria necessário também ouvir os instintos, do contrário, o pensamento lógico e racional “quebraria” o homem em si mesmo, o que daria lugar ao niilismo.

Já Kierkegaard, considerado o “pai do Existencialismo”, admite a razão, no entanto, para o filósofo o mundo só é conhecido ao sujeito, isto é, o mundo é subjetivo - daí sua frase “Sinto, logo sou”, que carrega ainda uma certa ironia ao cartesianismo. Assim, dois sujeitos vêem a vida e o mundo de diferentes pontos de vista e nenhum dos dois têm “razão” para dizer que o mundo do outro é “errado”, pois este só se revela à subjetividade. Kierkegaard, assim como Pascal, também vê a razão como incapaz de dar conta de explicar o mundo e a vida, para ele o homem existente era um ser de angústia, e que esta era um “sinal” de que sua identidade só se completaria se obtivesse uma ligação com o transcendente: Deus.

Vale citar que tanto Pascal como Kierkegaard não negam a razão, reconhecem sua importância para o homem, no entanto, assim como Nietzsche, vão ao contrário daquele sentido socrático - e depois ganha força com o Iluminismo - que a racionalidade e a lógica assumem, isto é, enquanto elemento supremo e infalível para o homem desvendar o mundo e sua existência. Essa razão coloca os instintos e o “sentir” do homem como falhos e incapazes de revelar a “verdade”, de tal forma que o homem, assim mutilado, vive em função de sua própria criação - o mundo racional -, tornando-se prisioneiro de si mesmo.

Tanto Pascal como Kierkegaard reconheciam a existência de Deus e o valor sagrado de Jesus Cristo, no entanto, nenhum dos dois era adepto de uma religião sistematizada em uma instituição. Pelo contrário, ambos faziam fortes críticas ao catolicismo e ao cristianismo, na medida em que o viam como sistemas onde a razão e a hipocrisia dominavam deturpando os verdadeiros valores de Cristo. Nesse sentido, ambos diziam que a religião tinha que ser como nas primeiras comunidades cristãs onde Cristo vivia e pregava.

Obra dos autores:

A principal obra de Pascal é “Pensamentos”, escrita em forma de aforismos onde o mesmo faz críticas à ciência, à razão, ao ateísmo e ao cristianismo, apresenta suas argumentações em prol de Deus e Jesus Cristo. Pessoalmente acho um livro bastante interessante, nunca o li do começo ao fim, mas gosto de abrir o livro em determinados assuntos e ler alguns aforismos que carregam altas doses de sagacidade e por vezes ironia pascaliana - como a do exemplo utilizada nesse post. A obra é de domínio público e, embora seja facilmente encontrada a “preços irrisórios”, é disponível em e-books >>

Já Kierkegaard é um “tipo” estranho, sua escrita é de difícil compreensão e por vezes confusa. Nela há traços marcantes da própria existência conturbada do filósofo marcada por problemas com os pais, solidão, chacotas e angústia. Este último representa um dos grandes temas de seus estudos, sendo O conceito de angústia uma de suas principais obras junto com O desespero humano e Diário de um sedutor.

Sinto, logo sou. - Kierkgaard

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