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A filosofia de Schopenhauer – o mundo como vontade de representação
9out2008 Categoria(s): Filosofia Autor: advEste post é continuação de: Arthur Schopenhauer – o pai do pessimismo?
Quem vê as inúmeras e variadas instituições destinadas ao ensino e ao aprendizado, além da grande multidão de alunos e mestres, poderá acreditar que para o gênero humano a compreensão e a verdade são de extrema relevância. Todavia também nesse caso as aparências enganam. Os mestres ensinam para ganhar dinheiro e não visam à sabedoria, mas aparecer e receber o crédito de seus semelhantes; e os alunos não estudam para adquirir conhecimento e compreensão, mas para poderem falar e atribuir-se prestÃgio. (Schopenhauer, A arte de insultar)
Schopenhauer nos apresenta a sua idéia de mundo na sua extensa obra chamada O mundo como vontade de representação (1818). O mundo em Schopenhauer é vontade, e vontade se faz representação, representação é uma vontade disfarçada na individuação. É nessa dinâmica que a vida como sendo sofrimento e dor deve ser entendida, ao contrário de ser mera ofensividade.
A representação é o mundo tal como nos aparece na sua multiplicidade, porém, essa multiplicidade representativa que o homem cria, é organizada e articulada no espaço e no tempo. Surge ai dois princÃpios: o princÃpio da individuação e o de razão.
O princÃpio da individuação nos remete ao que Schopenhauer concebe como sendo espaço e tempo, em suas formas de individuação e multiplicidade onde os fenômenos ocorrem. Por princÃpio da razão, o filósofo entende o caráter explicável que nós damos aos fenômenos que se sucedem no espaço-temporal.
Ressalta importante a fazer é que a razão para Schopenhauer não é revestida do tradicionalismo filosófico socrático-cartesiano. A razão é mera ilusão; embora as representações do mundo sejam organizados pela nossa razão, a “verdade” será sempre inacessÃvel, sendo este tÃtulo reservado à vontade. Tirando a vontade, conceito central da filosofia schopenhauriana, nada existe no mundo senão fantasias.
Schopenhauer revestiu a vontade com a essencialidade metafÃsica, daà um dos pontos de discordância de Nietzsche. O elementar existente em toda vida é a vontade. Mas o que é a vontade? A vontade é um impulso cego presente em todos os seres vivos, ela não é acessÃvel à razão, mas se mostra através da razão. O objetivo da vontade não é senão a satisfação, que também não é da ordem cognoscente.
Porém o mundo não permite que essa vontade seja satisfeita em sua plenitude, há obstáculos demais, de tal forma que é exatamente nesse contexto que devemos entender o mundo como sendo sofrimento e dor para Schopenhauer.
Não há nenhuma forma de satisfação da vontade em sua integridade, quando não muito um pouco de gozo, mas que tão logo dissipa no surgimento de outras necessidades. É nesse movimento incessante pela busca de satisfação, sendo ela jamais obtida de forma integral, que a vida é uma sucessão de sofrimentos com alguns pontos de prazer.
São na alternância entre sofrimento e prazer, desejos e decepções que surgem com o devir que a vontade se manifesta. A vida em total equilÃbrio é impossÃvel, a vontade é movimento constante em busca da satisfação, é o nascer e o perecer incessantemente sendo renovado. Nesse sentido, somos eternos, pois sendo vontade a essência da vida para Schopenhauer, ela é sempre sucessão infinita presente na Vida, um eterno ciclo renovável.
A vontade reside fora do campo das aparências e não habita o espaço-temporal. Somente no corpo é que podemos perceber as suas manifestações em essência, para Schopenhauer, o homem é vontade. Mas se habitamos um espaço-temporal, isto é, fora das acomodações da vontade, como ela se apresentará no mundo?
A vontade se apresenta pelas representações. Como anseio ávido, impulso básico e cego da espécie, ela se objetiva através do mundo das idéias. É por meio do princÃpio da individuação e da razão que a vontade usa “roupagens” múltiplas para ser-no-mundo. A representação se mostra como expressão da vontade disfarçada que disputa a matéria em um espaço-temporal.
Freud, na construção do inconsciente, apoiou-se fundamentalmente na filosofia de Schopenhauer. Nietzsche, como já dito, também se apropriou da vontade, porém, desvestida de essência e verdade, e para além de sua função cega e negativa da vida, fez da vontade a força criadora que permite ao homem fazer de si uma obra de arte ou se quebrar nela mesma: a vontade de potência.
É ingênuo atribuir a Schopenhauer o termo pessimista tal como ele costuma ser significado para nós: fazendo oposição à felicidade inventada pelos homens modernos, que tem como essência a crença em um terno estado de perfeito gozo ou a leviana idéia de que somente “pensamentos positivos” devem fazer parte do nosso itinerário.
Schopenhauer oferece nada mais que uma interpretação para a vida. Uma vida que é vontade cega num devorar-se a si mesma, sem cessar. A dor e a destruição são intrÃnsecas a essa vida, pois a vontade é indiferente à individuação, de tal forma que ela necessariamente acarreta o sofrimento do outro e de si. Um corpo habitado pela vontade não vê outro senão como inanimado, um meio para satisfação como qualquer objeto, decorrendo daÃ, tal como em Hobbes, uma natureza onde o homem é o lobo do homem.
Com essa idéia terrÃvel de vida, Schopenhauer não está sentenciando a vida no conformismo, não está dizendo para nós fazermos guerra uns com os outros. Conhecendo essa vontade cega que reside nos subterrâneos da nossa existência, para Schopenhauer, podemos buscar formas mais satisfatórias de relacionamento com o mundo e com as outras vontades, isto é, com os outros seres vivos.
Como caminhos possÃveis que Schopenhauer nos oferece para escapar do incessante devorar-se a si mesmo imposto pela vontade, há a contemplação estética e o ascetismo. O primeiro é a possibilidade do homem transcender sua percepção de mundo, libertar-se do desejo e, temporariamente, contemplando a aparência do belo, suprimir o sofrimento.
A arte, por excelência, é para Schopenhauer um meio para contemplação capaz de ofuscar a vontade. A contemplação pura da arte, descompromissada, faz o sujeito perder-se de si, ela é independente do princÃpio da razão e atemporal. Por meio da arte o homem pode “apagar”, momentaneamente, o mundo que é sofrimento e trazer a visão confortante da percepção artÃstica.
A arte schopenhauriana também influenciou profundamente Nietzsche, sobretudo em O nascimento da tragédia, onde esta era vista ainda em seu caráter metafÃsico, o que tempos depois Nietzsche eliminaria.
Interessante notar é que nessa relação inicial de mestre-discÃpulo, para ambos, a vontade é caos, sofrimento e contradição, porém, enquanto Schopenhauer a vontade opera negando a vida, já que a satisfação será sempre impossÃvel, em Nietzsche ela é a própria força criadora para afirmar a vida, vontade do artista para obter a alegria no mundo aparente.
Já pelo outro caminho, pela via do ascetismo, Schopenhauer acredita que é possÃvel, de forma mais duradoura, apaziguar a dor. Este caminho não é senão a negação da vontade. Pelas representações oriundas da vontade, o asceta faz dela uma arma contra si mesma, nega-a através de suas representações que elegem ideais como elementos mais supremos e primordiais para obtenção do gozo, e essa arquitetação se dá no plano supra-sensÃvel. Por estar esse gozo representado no mundo das idéias, o asceta, enganando a vontade, por assim dizer, não se sabe por quanto tempo, irá desfrutar de satisfações.
Considerações finais
De forma breve e sucinta, penso que o exposto acima pode ser fundamental para os interessados na leitura de Schopenhauer não se sentirem intimidados com o que poderá encontrar. O conceito de vontade e o mundo como vontade de representação são noções chaves que “justificam” a vida como sofrimento e dor, sem, contudo, ser esta uma condição passÃvel de ser interpretada apenas como ofensa à vida, mas sim, uma condição inescapável aos olhos de Schopenhauer.
Sua principal obra, O mundo como vontade de representação (1818), é extensa e sobretudo representa a sistematização do seu pensamento. Além disso, o filósofo conta com uma produção vasta de aforismos que revelam seu caráter peculiar, por vezes jocoso, provocativo, irônico, sarcástico e artÃstico.
Aforismos costumam ser perigosos se interpretados de forma literal, embora eles revelem traços do pensamento do autor que não podemos perder de vista, deve se levar em conta que representam antes uma tentativa de condensar páginas e mais páginas de pensamentos em poucas palavras que, muito mais com o intuito de revelar uma ordem, abrem vasto campo para as interpretações do leitor.
Outra obra bastante conhecida de Schopenhauer é Parerga e Paraliponema (1851). Foi através desta última produção que o filósofo ganhou notoriedade. Pelo que me parece não existe tradução na Ãntegra desta obra para o português, no entanto, é possÃvel encontrar em algumas partes, em forma de pequenas coletâneas temáticas como “A arte de ser feliz”, “A arte de escrever”…, etc., para a nossa lÃngua.
Embora seja a vontade o elemento essencial do mundo para Schopenhauer, que tem sim a pretensão de ser a realidade, a verdade essencial e indivisÃvel, sua produção abre campo para várias interpretações, tanto é que influenciou personagens notórios, seja na filosofia, na ciência ou na literatura; além dos já citados Nietzsche e Freud, alguns dos influenciados foram: Tolstoi, Guy de Maupassant, Proust, Jung, Wittgenstein, Einstein, Machado de Assis, etc.
EspÃritos Livres
outubro 9th, 2008 at 21:39
Demais o seu blog, parabéns, também gosto do Nietzsche por isso o nome do meu blog, EspÃritos Livres, conheço as teorias, inclusive a do eterno retorno do mesmo, de toda forma um abraço!
dalila
outubro 15th, 2008 at 7:06
Considero Schopenhauer e Nietzsche como os melhores filosofos que expressam a interpretação da realidade. Interessante a inter pretação desse texto, tambem trabalho com esses filosofos e´são leituras muito prazerosas.
adv
outubro 15th, 2008 at 18:10
@dalila: =)
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Monique Moura
março 12th, 2009 at 13:41
Muito útil este texto! Preciso e claro!
adv
março 12th, 2009 at 18:21
@Monique Moura: grato ;)
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julho 11th, 2009 at 19:32
[...] dos pensamentos de Schopenhauer, os principais são Arthur Schopenhauer – o pai do pessimismo? e A filosofia de Schopenhauer – o mundo como vontade de representação. Ainda, em tempos que parece haver um clamor envolto de mÃstica sobre a leitura, tanto Nietzsche [...]
nelson soares da silva
agosto 23rd, 2009 at 9:18
não existe no se mundo não fantasia,vida e vontade
que nada é que um impusso cego em todos
os seres vivos,ela não é acesssivel à razão,
mas se mostra através da razão.
nelson soares da silva
agosto 23rd, 2009 at 9:22
não existe no mundo se não fantasia,vida e vontade
que nada é que um impusso cego em todos
os seres vivos,ela não é acesssivel à razão,
mas se mostra através da razão.